quarta-feira, 16 de maio de 2007

Marisa, o inverno e eu.

Ela era uma mulher normal. No auge de seus trinta e dois anos, morava com o namorado num apartamento simples e, sinceramente, não era aquilo que tinha sonhado pra sua vida. Ela queria mais, muito mais. Tinha estado em Paris, Nova York e, no entanto, voltara para um kitnet desprezível no Brasil.

Da modelo que fora um dia, depois de ter viajado por tantos lugares, hoje se resumia a uma simples representante de produtos de beleza com um namorado cozinheiro. O luxo passou e o resto virou lixo. Aquela beleza que a sustentara por quase cinco anos, agora só servia para vender desodorantes e cremes antiidade.

Marisa Vitella. Era pra esse nome ter feito sucesso. Era pra ela estar morando em Paris, ter um namorado rico. Passar as férias no Caribe. Ser reconhecida internacionalmente. Era, era sim. Mas não aconteceu e Marisa viveu desde então na sombra do que um dia poderia ter acontecido, lembrando do que passou e nunca mais voltará. E ela continuou lá, na sua infelicidade habitual, criando contos de fada para se reconfortar. Pobre Marisa. Mal sabia que o presente também podia ser bom.

Marisa me faz pensar em você e, de certa forma, em mim também. Às vezes, fico lembrando daquele tempo, quando morávamos em Gramado e víamos as hortênsias florescerem sempre que o inverno ia embora. Lembro-me do seu jeito de me abraçar quando o frio era muito forte e de como colocava a touca de lã em minha cabeça de criança me dando beijos estalados. Ah, Marisa me faz ter boas recordações.

Sinto pena dela, mas sinto pena de mim também. Porque assim como o passado glorioso dela não voltará jamais, você também não voltará para mim. Sinto saudades do jeito que me olhava, e de como me fazia carinho, mas diferente de Marisa, eu preciso seguir em frente, por mais que isso doa.

Fiquei um tempo vivendo daquelas boas lembranças; porém, acho que agora preciso viver a vida do jeito que ela está, e isso significa, sem você. Mas tenha certeza de que tudo aquilo que nos aconteceu naqueles cincos anos de invernos rigorosos, jamais esquecerei. Porque nunca me senti tão segura quanto quando estava contigo. E nunca vou esquecer da força com que pegava minha mão para atravessarmos a rua, de como nos despedimos naquele último dia em que te vi e da maneira verdadeira que você me desejou toda a felicidade do mundo.

Sinto saudades, mas quero seguir em frente e Marisa deveria seguir também. Ela pode ser muito feliz com o namorado cozinheiro e eu sei que posso ser feliz sem você. Mas a lembrança continuará sempre a povoar nossa mente e a saudade doerá eternamente. Mas vou seguindo, porque eu sei que o que você mais queria era a minha felicidade, e eu irei de tê-la, por ti, e espero que Marisa viva com o que tem de bom por aqui, hoje, agora, e deixe as memórias na cabeça e no coração, assim como estou tentando fazer.

3 comentários:

Julio Dalmaso disse...

Gabriela, vim agradecer seu comentário e dizer que você também escreve muito bem, e vejo Marisa como uma pessoa presa em momentos. Ela saberá o que mudar na hora certa, bem como você.

abraços!

Michel disse...

AAaaah, gabi, que texto maravilhoso, tá escrevendo muito bem ^^
É isso aí, mudar é crescer

:*******

Vinnicius Silva disse...

Gabi!

Gostei muito deste novo texto.
Parabéns.
Já lhe disseram, mas eu repito: você tem talento!

=)